
Ontem assisti o filme Beleza Americana de novo... A primeira vez foi numa época muito conturbada, época essa que não lembro de muita coisa, MUITA mesmo. Inclusive, de um filme tão bom... Eu não lembrei nem o que tinha pensado dele. Estava realmente a caminho da loucura, então não me espantaria se sequer não o tivesse entendido.
Bom, o que me chamou mais atenção foi esse casal... Pareceu-me o modelo "perfeito" de relacionamento e fez-me ver como tenho sido "tolerância zero" (talvez eu tenha me "achado" muito para chegar a tanto). O jeito de Ricky é atraente aos olhos de Jane e mesmo depois de ele se tornar amigo do seu pai, pessoa detestável, ela não o descarta. Não que eu, no lugar dela, acabasse descartando... Mas ficaria pensando coisas como: "Por que Ricky gosta do meu pai? Ele é horrível, ridículo, eu jamais me aproximaria e blablabla", ou até mesmo: "Meu pai me faz mal e Ricky ainda assim é amigo dele, logo, ele não liga pra mim, tanto faz quem me faz mal!", e não o deixaria livre até que ele, no mínimo, me desse uma explicação convincente para que eu aceitasse tal relacionamento (o dele com o meu pai, no caso). No filme, a gente vê que os motivos que faz Jane desgostar do pai são os em relação à ausência do seu comportamento de pai, mas nada tão grave, logo, não teria sentido se Ricky o julgasse por esse mesmo motivo, certo? Sim... Afinal, ele já tem outro pai para desgostar e Jane também não toma as dores de Ricky totalmente para si. Assim é a vida. E isso não é egoísmo, é individualidade.
E eis a prova de que um relacionamento não enxe vazio de ninguém: quem não tem estrutura, não sabe amar. Nunca aparecerá o "companheiro ideal" ou "a pessoa que o vê neste mundo", já que grande parte das pessoas que se sentem solitárias e buscam desesperadamente um companheiro, na verdade, querem é registrar sua vivência no mundo e, para isso, precisam dormir e acordar todo dia sabendo que alguém está preocupado com o que ela pensa, sente e faz durante 24 horas. Não podemos nos relacionar com "anjos da guarda", os céus não permitiriam. Isto é, se é que eles existem realmente.
Tem um comentário de Contardo Calligaris sobre esse filme, que diz que fazer um enredo criticando estilos de vida é fácil, difícil é mostrar o estilo de vida "certo" ou "ideal"... Ele não está errado, mas não acho o filme ruim por isso, muito pelo contrário: abre portas para mudanças em muitas pessoas, como para mim, em muitos sentidos (o desse casal foi apenas um dos). Talvez não seja possível mostrar o estilo de vida perfeito, justamente porque ele não existe... Mas sabendo dos erros cometidos por nós mesmos e pelo próximo e evitando a repetição deles, talvez nós possamos evitar esses erros, ainda que erremos de todo jeito, mas será de maneiras diferentes, ou, por que não? Acertarmos.